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A volta por cima de José Saramago com o genial "A Viagem do Elefante"

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008 · 0 comentários


MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Não seria de estranhar se "A Viagem do Elefante" (Companhia das Letras), novo livro de José Saramago, fosse uma chatice. Aliás, era o que muita gente esperava, incluindo essa resenhista que vos escreve. Razões não faltam. Primeiro, há um mito de que dificilmente um autor se supera depois de ganhar o Nobel, como se a premiação fosse o cume, o ponto mais alto que se consegue alcançar. Saramago, que recebeu o Nobel de Literatura em 1998, parecia seguir esse caminho quando lançou "A Caverna", em 2000. Com esse livro, chato e complicado, deu a impressão mesmo de que o melhor do autor português ficara para trás. Ainda tinha mais um agravante para colocar em xeque a qualidade de "A Viagem do Elefante". Ele foi produzido num momento complicadíssimo da vida do escritor. As primeiras 40 páginas foram escritas antes de Saramago sucumbir a uma doença respiratória grave. Recuperado, ele retomou a escrita de onde havia parado. Mas, contrariando todas as expectativas, "A Viagem do Elefante" é não menos que genial. Mais que isso, o livro é uma resposta para quem acha que a narrativa está na UTI e que todas as formas de contar histórias estão esgotadas. Saramago faz uma declaração de amor à literatura, com um texto deliciosamente irônico. Dá quase para ouvir a voz do "contador octogenário" que relata as desventuras do elefante dado como presente por dom João 3° e sua mulher ao arquiduque da Áustria, Maximiliano 2°, no século 16. O ocorrido é verdadeiro. O presente foi realmente oferecido e a viagem da comitiva real com o elefante, entre Lisboa e Viena, de fato aconteceu. A partir disso, o autor deu asas à imaginação e estabeleceu relações interessantíssimas. Igreja e capitalismo são os alvos preferidos de Saramago, que não poupa sarcasmo na descrição de cenas hilariantes. Numa das melhores do livro, salomão (o elefante, que assim como os outros personagens é identificado com letras minúsculas) leva à comunidade ao delírio quando protagoniza um milagre, meio falso, meio verdadeiro, mas um milagre. O elefante é a porta de entrada a um mundo de fantasia. Em alguns momentos, é ovacionado como criação divina, causando espanto e comoção por onde passa - naquela época, boa parte dos europeus jamais havia visto um animal desses. Por outro lado, não há metamorfose em salomão. Ainda que endeusado, ele não deixa de ser o "bruto paquiderme de quatro côvados de altura a descarregar malcheirosas excreções" entre Portugal e Áustria. Uma delícia é ver como Saramago aproxima a irracionalidade da emoção. Não é que o elefante pareça um homem. É, sim, o homem que se assemelha ao bicho, num jogo retórico apaixonante. Entre salomão e o resto do mundo existe um homem. Subhro, o cornaca (como se chama em bom português o tratador de elefantes), é um personagem central na trama. É pela voz do indiano intelectualizado que saem as críticas mais afiadas ao sistema. Montado na nuca de salomão, ele observa as armações religiosas e políticas que se estabelecem no decorrer do trajeto. O modo de narrar Outro aspecto importante de "A Viagem do Elefante" é o trabalho de narração executado com maestria por Saramago. A começar pela estratégia visual adotada pelo autor, que abre mão de pontos finais e travessões e opta pela vírgula, um intervalo breve, para separar os diálogos - o que dá tremenda agilidade ao texto. Os nomes próprios são prescindidos de iniciais maiúsculas, igualando reis e animais com letras minúsculas. Mas o melhor de tudo é que o autor não faz mistério sobre seu processo criativo, chamando o leitor a todo instante para o método de construção narrativa. Logo nas primeiras páginas, por exemplo, o narrador anuncia o uso de dois discursos paralelos que nunca se encontrarão: o dito e o não-dito. Também chama atenção para as soluções mágicas que alguns episódios terão, relevando explicações nada lógicas para alguns fatos, no que consiste a grande delícia da criação. No final, o autor carrega as tintas para descrever a inesgotável generosidade da imaginação, que preenche os espaços vazios deixados pelo mundo real, e inventa "chaves para abrir portas órfãs de fechadura". E conclui que o melhor lugar do mundo é mesmo o do mentiroso, do romancista. Uma resposta e tanto para quem acha que o livro vai acabar e que a narrativa está à beira da morte. A quem pensa assim falta uma leitura de "A Viagem do Elefante", um lançamento com cheiro de best seller.
fonte:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/12/11/ult5668u67.jhtm

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